domingo, 5 de fevereiro de 2012

Faster, Pussycat! Kill! Kill!


Três "go-go dancers" dirigem pelo deserto por diversão com seus carros esporte, quando chegam à beira de um rio. Billie (Lori Williams) se joga na água, deixando sua amiga Rosie (Haji) enfurecida, que vai atrás dela, dando início a uma briga dentro d'água até que Billie consegue se livrar e caminhar até a margem. Rosie, ainda não satisfeita, força-a a continuar a contenda rolando na areia. Mas sua líder, Varla (interpretada pela divina Tura Satana), impassível à cena que se passa bem a sua frente, decide propor um jogo para mostrar quem é a mais forte...

Assim começa um dos melhores títulos do cinema exploitation dos anos 60, senão de todos os tempos, que à época de seu lançamento foi um fracasso, mas com o tempo foi atingindo sua proeminência devido ao status cult que seu diretor, Russ Meyer, atingiu no decorrer de sua filmografia.

"Faster, Pussycat..." pode não conter a nudez explícita pela qual seus filmes se tornaram conhecidos, mas isso é só um detalhe perante ao irresistível charme sexual feminino capaz de esmagar qualquer marmanjo.  O filme fez de sua protagonista/vilã Tura Satana um ídolo pin-up daquela época, conhecida até hoje pelas suas justas vestes pretas, sua franja reta e seu indescritível decote de deixar qualquer homem estagnado. Não foi à toa que o "Papa do trash", John Waters, proclamou esse como o melhor filme já produzido.

Logo nos primeiros segundos, antes mesmo da cena inicial contada no primeiro parágrafo desta resenha, o espectador é alertado por uma voz em off sobre o que virá em seguida: violência.



"Ladies and gentlemen, welcome to violence, the word and the act. While violence cloaks itself in a plethora of disguises, its favorite mantle still remains... sex. Violence devours all it touches, its voracious appetite rarely fulfilled. Yet violence doesn't only destroy, it creates and molds as well. Let's examine closely then this dangerously evil creation, this new breed encased and contained within the supple skin of woman. The softness is there, the unmistakable smell of female, the surface shiny and silken, the body yelding yet wanton. But a word of caution: handle with care and don't drop your guard. This rapacious new breed prowls both alone and in packs, operating at any level, any time, anywhere, and with anybody. Who are they? One might be your secretary, your doctor's receptionist... or a dancer in a go-go club!"


Não a violência que costumava ser vista no cinema sessentista. Somos então advertidos sobre a fúria contida sob a pele adorável de uma mulher, possivelmente sua secretária, sua recepcionista e, naturalmente, nossas três go-go dancers, que mostram que não vieram ao mundo para se submeterem ao opressivo poder masculino.

Os oitenta minutos seguintes nos dão uma prova do caso em questão quando nosso trio de beldades se deparam com um rapaz, também conduzindo seu carro esporte pelo deserto junto à sua namorada, Linda (Sue Bernard). Após provocações e uma aposta de corrida na qual o rapaz perde, inicia-se mais uma luta, dessa vez protagonizada por Varla e o mauricinho, resultando na morte do mesmo num show de supremacia feminina.

Linda, horrorizada com a cena, desmaia. Aproveitando a situação, Varla a droga e a põe no banco de seu carro. Agora as três precisam pensar no que fazer com a menina e sair o mais rápido possível daquele lugar antes que possam ser descobertas.

Após saberem de uma informação valiosa pelo atendente paspalhão (e fofoqueiro) de um posto de gasolina, elas seguem um paraplégico homem de terceira idade
 (Stuart Lancaster) e seu robusto filho demente (Dennis Busch) ao saberem que o velho esconde em sua propriedade uma gorda quantia em dinheiro. Quantia essa que seria o fim das atribulações financeiras das três belas damas. O espectador é então deixado a aguardar ansiosamente para mais deliciosas cenas de violência repletas de sensualidade.


"Faster, Pussycat! Kill! Kill!" é um hino de glória sobre mulheres audaciosas que derrubam os homens à sua própria maneira, sexualmente vorazes, com dois punhos fortes e capazes de deixar uma trilha de masculinidade em colapso onde quer que passem. O que o torna um ótimo filme é a maneira que mostra o sexo e a violência em algo mais icônico do que explícito, à parte da filmografia do diretor que estava para vir em seguida.



Sem dúvidas, foi Russ Meyer com essa obra-prima quem abriu portas para a geração de bad girls que conhecemos atualmente no cinema.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Grindhouse



Grindhouse é um termo empregado nos EUA para denominar salas de cinema em medianas (ou péssimas) condições, onde, nos anos 60 e 70, eram exibidas produções de baixo orçamento tais como os filmes que pretendo resenhar aqui nesse blog. 

Grindhouses eram conhecidas por suas exibições ininterruptas de filmes classe B formadas por apresentações duplas ou triplas de filmes consecutivos intercalados por trailers das próximas estreias.

Mas por que "grindhouse" (algo como "casa de moeção", numa tradução livre da palavra)? O que uma "casa de moeção" tem a ver com um cinema? Ao escrever esse texto, confesso que, com a mente deturpada que eu tenho, cheguei a imaginar uma sala de exibição onde as pessoas são assassinadas - adivinhem como? Exatamente, trituradas em alguma máquina de abatedouro. Mas não, depois de uma pequena busca, descobri de onde surgiu o termo.

No filme "Lady of Burlesque", de 1943, uma das personagens refere-se ao teatro da 42nd Street, onde são apresentados stripteases e números de danças chamados bump'n'grind, como "grindhouse". Casas desse tipo eram muito comuns naquela época, porém com o tempo foram desaparecendo, dando lugar às salas de cinema por volta dos anos 60.

Após a decadência urbana que ocorreu após problemas sociais em meados dos anos 60, a mudança econômica forçou essas casas a serem fechadas ou oferecerem uma programação que a televisão era impossibilitada de transmitir. Nos anos 70, a programação essencial desses teatros era de filmes exploitation, de conteúdo pornográfico e vulgar, filmes de terror de qualidade duvidosa e cópias mal dubladas de filmes chineses de artes marciais.

Já nos anos 80, o advento do videocassete caseiro e canais de filmes a cabo ameaçaram tornar os cinemas grindhouse uma programação obsoleta. Ao fim dessa década, essas salas de exibição já não existiam mais em lugares como Los Angeles, Nova York e São Francisco. Em meados dos anos 90, grande parte já havia desaparecido dos Estados Unidos, onde, atualmente, muito poucas grindhouses ainda conseguem sobreviver.

A afeição nostálgica que permanece no coração dos cinéfilos pelo já defunto cinema grindhouse tem feito com que o conceito de filmes que eram projetados naquelas salas mal-conservadas reaparecesse em diversas obras na cultura popular moderna. Um grande exemplo disso é o projeto criado em 2007 por Quentin Tarantino e Robert Rodriguez intitulado "Grindhouse", em que os dois cineastas - fãs confessos do cinema exploitation - dirigiram cada qual um filme: Rodriguez, "Planeta Terror" (Planet Terror), uma homenagem ao cinema grotesco com muita nojeira, zumbis e uma mulher com uma metralhadora no lugar da perna (sem contar com a presença de Bruce Willis virando zumbi, isso é impagável!); Tarantino, "À Prova de Morte" (Death Proof), em que um dublê misógino interpretado pelo fodão Kurt Russell persegue mulheres com seu possante Chevy Nova 1971.

Vou reservar um post mais a frente para falar melhor desses dois filmes e mais outros componentes da nova leva de "neo-exploitation".


sábado, 24 de dezembro de 2011

Cinema Exploitation

Exploitation - ou cinema de exploração - é um gênero cinematográfico subversivo muito popular nas décadas de 60 e 70. Trata-se de filmes de baixo orçamento, estrelados e dirigidos por artistas não muito populares naquela época, que com o passar do tempo foram ganhando notoriedade até os dias de hoje.


É conhecido por seus atrativos conteúdos abusivos e sensacionalistas, tais como violência, nudez, sexo, efeitos toscos e exagerados, consumo de drogas, bizarrices extremas, enfim, uma infinidade de fenômenos sociais em foco nos noticiários. Alguns, entretanto, eram exercícios de picaretagem dos estúdios de baixo orçamento, que usavam elementos de filmes hollywoodianos que tiveram sucesso junto ao público.


Comumente, é concedido a esse gênero (e seus subgêneros) a característica de baixa qualidade e mau gosto. Contudo, isso não é algo inerente, tendo em vista que muitos filmes dessa "escola" serviram - e ainda servem - de inspiração para alguns cineastas atuais, tais como Tarantino, Robert Rodriguez e Rob Zombie. A intenção dos filmes exploitation era perverter aquela pretensão artística que buscava altos lucros no mercado cinematográfico, enquanto estampava nas telonas o desagrado do mundo pós-guerra e as revoluções culturais que houveram naquela época.

Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965), de Russ Meyer

Filmes com essa característica apelativa só ganharam visibilidade nos anos 60 e 70 com a quebra de tabus e a liberação de costumes cinematográficos nos EUA e Europa, mas podiam ser vistos desde a década de 1930 em filmes como Child Bride (1938), que retrata o problema de homens de meia-idade casando-se com meninas muito mais jovens nos Montes Ozarks. Outros assuntos, tais como o uso de drogas, no filme Reefer Madness (1936), atraiu uma audiência que os estúdios cinematográficos de maior porte preferiram evitar, a fim de manter suas boas reputações. Sex Madness (1936) mostra os perigos de doenças venéreas obtidas através do sexo antes do casamento, entre outros temas.

Bom, acho que está legal essa introdução que eu fiz aí, com fontes no Wikipedia e no Grindhouse Database. Estou criando esse blog como fã do cinema exploitation, subgênero cinematográfico tão pouco conhecido em terras tupiniquins.